O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (2) que o governo federal pretende anular um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) realizado pela Petrobras, após a venda do produto a distribuidoras com valores até 100% superiores aos preços de referência da estatal. A declaração foi feita durante entrevista em Salvador, onde o presidente também indicou que o certame teria ocorrido em desacordo com orientações internas da companhia. As informações são da Agência Brasil.
Segundo Lula, a operação será reavaliada para evitar impactos no preço final do botijão de gás ao consumidor. O presidente destacou que o objetivo é impedir repasses considerados elevados, sobretudo para famílias de baixa renda, em um cenário de pressão sobre os custos de energia.
Governo questiona formato do leilão
Durante a entrevista, o presidente afirmou que o leilão foi realizado com ágio elevado, o que teria contribuído para distorções no preço de comercialização do GLP. A estratégia de venda com valores acima da tabela é utilizada, em alguns casos, para alinhar preços internos ao mercado internacional sem alterar oficialmente a política de preços.
O governo federal, no entanto, avalia que esse modelo pode gerar efeitos negativos na cadeia de distribuição e no custo final ao consumidor. A decisão de revisar o leilão está inserida nesse contexto de controle de preços e monitoramento do setor energético.
Diferença entre preço de origem e valor ao consumidor
O presidente também voltou a apontar a diferença entre o preço de venda do gás na origem e o valor cobrado ao consumidor final. Segundo ele, o GLP comercializado pela Petrobras pode sair por cerca de R$ 37 às distribuidoras, mas chegar a mais de R$ 140 nas residências.
A variação é atribuída a fatores como custos logísticos, margens de distribuição e revenda, além de tributos. Ainda assim, o governo avalia que há espaço para maior controle e transparência na formação dos preços ao longo da cadeia.
Programa social busca ampliar acesso ao gás
Como resposta ao impacto do custo do botijão no orçamento das famílias, o governo federal implementou o programa Gás do Povo, que substituiu o Auxílio Gás. A iniciativa prevê a ampliação do acesso ao produto por meio de subsídios destinados a famílias de baixa renda.
A política pública integra o conjunto de medidas voltadas à redução da vulnerabilidade social e ao enfrentamento do aumento no custo de itens essenciais.
Mercado interno sofre influência internacional
Apesar de ser produtor de petróleo e derivados, o Brasil ainda depende de importações para parte do abastecimento, especialmente no caso do óleo diesel. O mercado interno de combustíveis e gás é influenciado por cotações internacionais, atualmente impactadas por tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Esse cenário contribui para a volatilidade dos preços e dificulta a adoção de políticas de estabilização sem impactos fiscais ou regulatórios.
Governo avalia medidas para conter alta do diesel
Além do GLP, o presidente também mencionou preocupações com o aumento do preço do óleo diesel. Segundo Lula, o governo estuda novas medidas para evitar reajustes que possam pressionar a inflação e os custos do transporte.
Entre as possibilidades está a edição de uma medida provisória para subsidiar o diesel importado, com previsão de desconto por litro. A iniciativa se soma a ações já adotadas, como redução de tributos sobre combustíveis.
Críticas à privatização e estrutura de distribuição
O presidente também criticou a privatização da antiga BR Distribuidora, ocorrida em 2019, afirmando que a empresa poderia atuar como instrumento de regulação de preços no mercado interno. Atualmente, a participação direta do Estado na distribuição é limitada.
Lula citou ainda a venda da Refinaria de Mataripe, localizada em São Francisco do Conde, e afirmou que o governo estuda alternativas para ampliar a capacidade de refino e reduzir a dependência de importações.
Petrobras não comentou condições do leilão
A reportagem entrou em contato com a Petrobras para obter esclarecimentos sobre as condições do leilão e eventuais posicionamentos sobre a declaração do presidente. Até o momento, não houve resposta oficial.
O caso segue em análise pelo governo federal, que deverá definir nos próximos dias os encaminhamentos sobre a possível anulação do certame e eventuais ajustes na política de comercialização do GLP.


